quarta-feira, 18 de maio de 2022

Tudo demanda tempo

Jogada numa diagonal encostada na janela do Uber eu me pego na reflexão do século da minha vida. O motorista, meu xará de boina ouvindo uma espécie de Pink Floyd, me fez levantar as sobrancelhas com uma tal frase que distribuia ao telefone - e também aos ventos e à minha atenção - com alguém muito importante pra ele. Dizia, paciente e não aflito: “tudo demanda tempo…”


Tudo demanda tempo, dizia ele, e repetia também. Ou seja, cada singular escolha de nossas ações vai nos demandar um tempo, seja ele qual for. Somos gastadores de tempo. Acumulamos esperas, filas, os “vou dar uma passada”, burocracias, escolhas bobas que talvez nos façam bem tipo aquela pausa pro cafezinho e depois eu continuo. Hoje eu vou ficar com a minha mãe, hoje eu não vou fazer nada. Hoje eu tenho que trabalhar, será que estou vivendo ou só apertando parafusos com Chaplin? Uma mão no chat da reunião, a outra no google, um olhar pro nada, um dia soturno. Tempo voa e quando vê ja foi. Quando vê já foi uma hora. Quando já se viu, menina, passou um ano. Tem um ano que a gente não se vê? Parece que foi ontem. Hoje o tempo voa, amor. Escorre pelas mãos. Mesmo sem se sentir. O que queremos sentir, afinal? Quem vai nos dizer, o senhor do tempo? Ou será que nós somos os senhores do nosso próprio tempo? Por que a pressa esperando pelo fim de uma semana? Tomara que esse ano termine logo. Tomara que esse dia acabe. É isso mesmo? A moeda mais preciosa que temos está desvalorizada e a reflexão vale pra cada segundo que uso digitando neste computador, pra cada minuto que uso pra pensar na próxima paroxítona e pra cada hora que uso pra pensar o que farei com este texto.


Tudo demanda tempo, como dizia Julio. Qual é o seu tudo?

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Por um fio

Ela quase não começa
Ela quase não enxerga
Quem mais poderia ver?

Ela quase não debate
Ela quase não rebate
Quem mais poderia dizer?

Se não for ela, quem vai ser?

Por um fio ela começa a tecer
Um caminho, um começo, tudo incerto
Um fresco recomeço
Pelo fio do verso

quarta-feira, 28 de julho de 2021

o amor é um lugar

Uma vez que você ama, é pra sempre o amar

O amor é um lugar 


Eu não sou Einstein

Mas ele dirá


O coração que se abre pro amor 

Ao seu tamanho original nunca mais voltará


Você carrega ele no peito, na bolsa… até que um dia ele vai querer descansar 

O amor é um lugar


Eu não sou Chico

Mas ele dirá


Que nada é pra já, pra não se afobar

Amores serão sempre amáveis

Em silêncio ele pode esperar


Até que ele acorda, é agora, é o seu despertar

O amor é um lugar


Eu não sou Clarice

Mas ela dirá


Que se eu errar, que seja por amar

E por demais me entregar

sexta-feira, 18 de junho de 2021

o óculos que tudo vê


o óculos que tudo vê
é o meu

ele vê mais do que eu
pelas lentes embaçadas
sobretudo o olhar turvo
pelas lentes às vezes sujas
sobretudo o aro torto
mas é aí que ele vê
o foco, de repente!
nada me surpreende
pois o que encontro é o que tudo sei
só que não quero dizer
o que encontro são os meus medos
que no fundo não quero ver

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

o instante das ondas

nos mares por onde andei, nas ondas que contemplei
a emoção da plenitude eu encontrei

guardei

o jeito de cada onda aprendi a amar
o jeito que cada uma quebra na areia ou no mar

a onda é lar

o seu vai e volta me conforta
assim sei que o mar não transborda

pra mim, aqui é o momento
o instante, o acalento
o som das águas é silêncio

é o barulho
do agora

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Eu, Sonho

Sinto-me em um sonho,
Demorando a despertar.
Com longas sensações,
Impossíveis de decifrar.

Os sentimentos são diversos,
Difíceis de lidar.
Os batimentos incessantes,
Só fiz me acostumar.

Por mais que tenha superado,
Há resquícios para lembrar.
Que só vão embora por completo,
Quando eu enfim acordar.

quarta-feira, 28 de março de 2018

eu nunca parei de navegar

eu navego
navego nas águas do meu mar

mas às vezes me arrisco
me arrisco em mergulhar

em outros oceanos
desconhecidos
profundos
infinitos

por uns eu mergulho até descobrir
descobrir que posso retornar

em outros eu afundo
afundo sem poder respirar

eu também coleciono
coleciono conchas, ouriços, estrelas do mar
coisas que posso guardar, coisas que preciso soltar

e eu nado sempre pra poder voltar
pra beira, pra areia
pra borda, pra bóia
pra prancha, pra lancha

eu volto pra ancorar
ancorar meu coração
e recuperar o meu ar

pra voltar
e
navegar

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

exageradamente

quando penso em exagero
penso em você

quando penso em você
acho que é sempre exagero

mas não existe
exagero
no prazer

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A Festa dos Sentimentos

o meu coração pergunta:
- "tem espaço aí?"
alguém aqui de dentro responde bem alto:
- "pode entrar!"
e chegam os medos
que convidam as angústias
que avisam às verdades
que não quererem aparecer

nessa festa de sentimentos, o meu coração me pergunta mais uma vez:
- "tem espaço?"
- "pode entrar", responde o alguém aqui de dentro
e chega a compreensão
que convida o perdão
que avisa a fé
que não quer aparecer

mais tarde, o cansaço bate
e o coração insiste:
- "tem espaço?"
aquele mesmo alguém responde:
- "chegou quem faltava"
então chega o amor próprio
que convida a sensatez
que avisa à calma
que faz questão de aparecer.

os convidados essenciais
finalmente chegaram

pena que não podem mais ficar
precisam ir embora.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

(re)começo

o recomeço é pra quem tem coragem
se acha o limite pro sofrimento
se abre a janela pra felicidade

o recomeço é pra quem tem certeza
às vezes ela demora
mas o coração continua implorando leveza

o recomeço é pra quem tem vontade
há quem não queira
e continua sem a verdade

o recomeço é pra quem se ama
pra quem consegue entender que ser feliz não é o destino
e sim o trilho por onde se anda

o recomeço é carregar o que é só seu, de mais ninguém
é trocar os sapatos
e ir além.


eu mereço
os recomeços.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A Empatia Racional

Vai que às vezes você não sabia que a empatia pode ser comandada pelo seu cérebro? A empatia emocional, quando você reconhece as emoções do outro e se identifica, é quando, sem pensar, se compreende a dor, a tristeza, a solidão, a felicidade do outro. Fácil? Não muito. Mas tem algo que com certeza é bem mais difícil: a empatia racional. Isso, ela também pode ser cognitiva, você consegue se identificar com o outro pela experiência de reconhecer pensamentos, intenções. Uma vez tava lendo sobre a Teoria da Mente, que nada mais é do que o pressuposto que os outros possuem uma mente (né?) e que através da introspecção cada um de nós pode conhecer nossos pensamentos e, através da empatia, conhecer os dos outros - já que não podemos entrar na cabeça do amiguinho (só o Mel Gibson) - e realizar que, olha, eles podem ser diferentes.

Por que será que perceber e reconhecer os estados mentais do outro - desejos, intenções, pensamentos, crenças - é tão difícil? Por que será que nos colocar no lugar da outra pessoa, estabelecer a compreensão, perdoar, não perdoar, entender que deve desculpas, que ele faria de outro jeito, perceber que tudo na vida tem dois lados quando se trata de relacionamentos no geral? O outro é diferente, afinal, não tem a mesma mente que você, e nem que a minha. Não passou pelos mesmos caminhos, não respirou as mesmas culturas, não desenhou as mesmas cicatrizes. Ainda bem. Só a sua introspecção não vai ter levar a nenhum lugar além do seu próprio mundo. Que é legal, é maneiro, é necessário. Mas é pela falta do exercício de empatia que amizades se desfazem, relacionamentos se destroem, pessoas são hostilizadas pelas suas escolhas, cores, crenças, modos de encarar os fatos, formas de levar a vida.

Por mais empatia racional, por menos egoísmo emocional.

terça-feira, 28 de março de 2017

o mesmo poema

de que adianta o pedestal
se quem desce sou eu?

de que adianta a luz
se quem eu ilumino não é meu?

de que adianta o elogio
se o que eu ouço é "não deu"?

de que adianta libertar
se o caminho me perdeu?

e de que adianta o amor
se só em uma curva se esqueceu?


domingo, 10 de julho de 2016

A Plenitude

O pleno é paradoxo constante. Enquanto ele é simples, também é vasto. Ele é imenso e calmo, e é na imensidão que encontramos também a liberdade. A plenitude é tão grande, mas tão grande, que chega a ser de uma cor só. Sua beleza é confortável. Quando ela te envolve, é serenidade. É felicidade.

Pleno, pra mim, é quando você olha algo e o enxerga por inteiro, sem interferência de qualquer pensamento. Nada passa pela sua cabeça no momento em que você olha aquilo. Você admira. Pensa sobre o que vê como se não fosse acabar. E o que vem depois? Sei lá. Tô aqui.

Pode estar o mundo caindo, mas o que os seus olhos veem são o retrato do que acontece bem ali na sua frente. E nada mais importa, por enquanto. A plenitude te dá a oportunidade de sentir-se inteiro.

É olhar o mar e as ondas e ver mar e ondas. E não mar, ondas, ontem, o que vai ser, o que eu fiz. Só mar e ondas.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Tem um lugar

Tem um lugar
Ele não tem nome
Pode ter endereço

É perto do coração
Rente aos olhos
É onde volto pro começo.

Tem um lugar
Ele não é tangível
Pode ser realidade

É perto da minha mente
Passa pelo meu peito
E me lembra da verdade.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Quando Vinicius está certo

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."
Uma das frases mais certeiras que já li - e já vivi.

Posso dizer que é tão incrível quando a vida me proporciona encontros com pessoas que não têm nenhuma relação entre elas, mas que juntas - e ao mesmo tempo separadas - possuem o sublime poder de transformar minha caminhada. Elas podem tocar a minha intuição e fazê-la despertar, assim como acordar as minhas certezas. Pessoas essas que vão de amigos até aquele desconhecido sentado na mesma mesa de bar.

Quando o momento certo, a hora certa e as pessoas certas acontecem, é festa de sinergia. E não há presente melhor que a vida pode dar pra quem deve merecer esse tipo de luz e de clareza pra sua alma. Eu acredito tanto na energia das pessoas que é como se a vida pra mim fosse um gigante quebra cabeça de emoções. Aprendo cada vez mais que prestar atenção delicada ao que o outro te fala pode ter um valor que não se encontra em nenhuma missa ou mensagem de filme ou livro de auto ajuda.

Obrigada a todos os amigos, conhecidos e mentores que me ajudam a montar as partes mais difíceis do meu quebra cabeça. O momento é viver.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Esperei por mim.

Esperar é um belo verbo. Um verbo de muitos sentidos.

Esperar sentada ou em pé? 
Esperar o tempo passar. 
Espero pra ver? 
Esperando que dê certo! 
Espero na janela o vento no rosto.
Quer esperar comigo?
Não espero que isso aconteça de novo...

Esperar, em todo caso, não é tão bom quando envolvem coisas ou pessoas que não sejam você. Mas é natural do ser humano esperar sempre, porque afinal, somos feitos de relacionamentos, sentimentos. De vida. Viver é esperar. Mas ao invés de esperar por outros, por coisas acontecerem, vamos esperar pelo hoje. Vamos esperar por cada um de nós, somente. Experimente esperar somente por você, pelo seu amadurecimento.

Aprenda a concordar com suas escolhas. As minhas? Estou bem com elas. Eu não falo de escolhas certas, e sim de aceitar que por onde eu ando ou deixo de andar são renúncias que, se as fiz, são porque fizeram parte de mim e do que acho que vai fluir para o bem. E não só pelo meu bem.

Eu sempre esperei por esperar por mim. Esperar pela gente é viver o hoje. =)

domingo, 30 de agosto de 2015

Da madrugada

A insônia é rara
Mas quando vem, dara

Os pensamentos novos
Os pressentimentos tortos
A saudade que cala

Faz chorar
Viajar
Encaixar

Lamentar, também pelo pouco descanso

Mas se for de balanço
Num voo, alcanço

E é melhor que tente

Só assim os buracos não preenchidos 
Antes esquecidos
Retornam ao baú da mente.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Mel, Fel, Nada

É incrível como a vida consegue dividir as pessoas de acordo com o que elas têm pra dar. Poucos sabem entender a entrega de cada ser humano, ou quando entendem, pode demorar um pouco. Às vezes, também, a gente quer que a entrega do outro seja parecida com a nossa, mas olha! Não é. E nem vai poder ser, porque a entrega é feita da vontade, e a vontade vem da natureza, da cultura, do gene...

É. "Quem tem mel dá o mel, quem tem fel dá o fel... e quem nada tem, nada dá.", já dizia alguém importante por aí.
A gente que tem mel pra dar sabe reconhecer quem tem o fel e, pior, aquele que não tem nada. Esse é pior dos casos. Nada, nadica, nem um ponto de nada. Até quem dá o fel pode ser que mude um dia, será? Às vezes se arrepende. Às vezes põe pra jogo, conversa, se expõe. Olha aí a vantagem já. Mas quem tem nada não tem disponibilidade, não tem tempo pro outro, não sabe olhar pra frente e ver que existem outras pessoas ao seu redor. Simplesmente não sabe dar nada e também não exige muito do outro... e quando quem tem pra dar encontra alguém que não tem, a briga é feia. Não adianta, amigo, dar mel nem fel praquele que nada tem a dar pra você. Cai fora, ou entende essa.

Eu tenho mel, e graças à sabedoria e às voltas da vida, hoje vivo de encontro com pessoas da mesma vontade que eu.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Ensaio sobre a leveza

E de repente a retrospectiva do ano de 2013 passa pela minha cabeça, bem como um filme. Sabe aqueles filmes que começam devagar, lentos e com o "já sei o final!", mas que ao longo dele a trama se torna surpreendente e você sai do cinema pensando: "que filme genial!"? Então, é como o meu. E como todo filme sugere uma reflexão e carrega uma lição (ou pelo menos deveria), mesmo que seja a partir de um ou mais detalhes, eu pude extrair do meu filme inúmeras e valiosas lições.

O amadurecimento fez parte dele e pude constatar o ingrediente fatal pra felicidade: a leveza. Quando somos leves - de mente, alma e corpo - somos mais no mundo, somos mais pra nós mesmos. Eu me transformei em leveza; talvez tenha reencontrado a leveza de que tanto sentia falta, e que graças ao poder da vida pude agarrá-la novamente - e pra dessa vez nunca mais soltar. A leveza faz parte da minha essência, constrói meus valores, alimenta meu amor por mim, pela vida e pelo que posso amar, dando brilho aos meus olhos e simplicidade aos fatos.

Termino meu texto com um trecho de uma das minhas músicas prediletas:

"Aprendi da importância de não dar muita importância, ficar com os meus pés no chão
Aprendi que viver cansa, mesmo vivendo na França, mesmo indo de avião
Aprendi que tudo passa, tomando chá ou cachaça, tomando champanhe ou não
Aprendi que a desavença é porque sempre alguém pensa que ninguém mais tem razão
Aprendi que a descrença, a desconfiança e a doença são partes da maldição (...)"

("Aprendiz de Feiticeiro" - Cassia Eller)

Um beijo leve pra todos os protagonistas dessa vida.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Agora e sempre

Quem sou eu agora
Me transforma
Quem sou eu agora
Sempre quis ser pra fora
Quem sou eu agora
Minha essência que aflora 

Quem era eu antes
Me devora
Quem era eu antes
Me apavora
Quem era eu antes
Não pode ser eu agora.

Quem sou eu agora
Me conheceu antes de antes
Quem sou eu agora
Volta pra ser gritante
Quem sou eu agora
Grande

Quem era eu antes
Sem avante
Quem era eu antes
À deriva, distante
Quem era eu antes
Sem poder ser num instante.